Vida miúda

Cultivar, cultuar, cultura. Como inserir a família na cultura da vida doméstica? Como ensinar os filhos a gostar de cuidar, de fazer, preparar, criar? Cozinhar – ato de produzir alimentos. Para muitos, um hobby, uma curtição, para outros, uma tortura. Mas gostar ou não de fazer algo depende de como fomos inseridos na questão, depende da forma como encaramos o fazer. Se desde pequenos a vida doméstica nos é apresentada como um lugar de prazer, de cultuar coisas boas, bonitas e gostosas, cresceremos gostando de cozinhar – colocar afeto nas panelas, mexer com amor o caldo da vida compartilhada. O queijo melhor é o curado; o amor é o amadurecido na convivência. E o bem querer da cozinha é nela se debruçando com afinco.

A broa de fubá é a delícia da tarde na cozinha do conhecimento. Saber e sabor – mesmo radical grego. Saborear o café da manhã com a alma cheia de entusiasmo. Enfeitar a casa e perfumar as roupas de cama. A vida sem sentido é um tédio. A casa é a morada da alma, é nela que descansamos, sonhamos, angustiamos. Casa acolhe, casa bem cuidada é aconchego garantido, porto seguro nos momentos de aflição. Portanto, se ensinarmos aos filhos a gostar da vida miúda, a vida que é nossa, que garante nosso bem-estar, a vida do dia a dia, acredito que muitos vão acordar com gosto de pão de queijo, pudim e suflê. Com gosto de fazer, criar, reinventar a morada de cada dia.

Felicidade é saber colocar muito de si naquilo que fazemos, dar sentido ao que comemos, bebemos. Saborear a vida pequena – a miudeza da existência só será importante quando aprendermos a dela gostar: comer desde criança, na mesma mesa, a esperança do mundo.

“Minha mãe cozinhava exatamente arroz, feijão – roxinho, molho de batatinhas, mas cantava”. Adélia Prado sabe que, para gostar de cozinhar, o coração tem que estar em festa. Não resolve termos o queijo e a faca nas mãos, se não tivermos a fome.

Mães, pais, ajudem seus filhos – sejam homens ou mulheres – a se tornarem sujeitos desejantes. Desejar, debruçar sobre o fogão a crença num mundo mais saboroso. Descubram o delírio da boa mesa – todos juntos nessa arte.

Em tempos de confinamento, a vida doméstica é a agenda do dia. Contudo, é hora de reverenciar a vida miúda – ela merece nosso dedicar, acariciar.


                                                                                                                                        Inez Lemos (Psicanalista) 

2 comentários em “Vida miúda”

  1. Yolanda Maria Lemos Rebelato

    Querida Inês

    Belíssima reflexão para o momento que vivenciamos!!!
    Sabermos fazer com a alma nossas pequenas
    tarefas, penetrando nos lugares mais íntimos, resgatando nossas lembranças, muito nos ajudará a passar estes momentos, de forma mais prazeroso e nos dará o equilíbrio que tanto precisamos!
    Obrigada
    Landa

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