Profissão: uma escolha complexa

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A escolha sobre qual curso frequentar, qual profissão seguir, é parte de um conjunto de vivências que devemos estimular nos filhos. Não se trata de uma escolha aleatória, desvinculada da trajetória do garoto ou da garota. A decisão deve vir acompanhada de uma história, deve ser parte de um percurso, e cabe aos pais ficarem atentos a isso. Eles devem investigar se a decisão surge de um sonho, de uma tendência, se ela condiz com o que o filho ou a filha sempre insinuou, demonstrou como interesse, ou se é algo externo a eles.

Contudo, essa é uma questão que requer tempo, é uma longa caminhada de conversas e reflexões. Seria bem interessante se os pais aproveitassem o isolamento social para estreitar os laços afetivos com os filhos e aprofundar discussões, entre elas, as que envolvem escolhas profissionais.

Os modismos existem para serem questionados, interpretados. Juventude e adolescência são momentos de muita insegurança e requer dos pais paciência. Os jovens de hoje são facilmente influenciados, contaminados pelas mídias e redes sociais. 

Rever, relativizar, relevar, repensar. A maturidade é efeito de um processo, um ir e vir interno – longa caminhada pelos labirintos da intermitência da vida. Não se chega ao paraíso sem passar por alguns percalços, enfrentar adversidades. Para a psicanalista Françoise Dolto, “o prazer é muito bom, mas é o sofrimento que nos molda”. A ansiedade dos pais em querer que os filhos decidam rapidamente a profissão a abraçar é inimiga de escolhas seguras. Uma profissão diz de uma decisão que pode ser para toda uma vida, portanto, não é uma escolha qualquer.

Outro erro é quando os pais tentam intervir, influenciar, manipular e até chantagear para que os filhos “obedeçam”, atendam aos seus apelos e acatem seus desejos na escolha da profissão. Ao invés de pressionar e aumentar ainda mais a ansiedade dos filhos, devemos conversar, acolher suas demandas. Sem criticar, respeitar a opinião deles – mesmo quando a escolha não nos agrada

O tempo é sábio – esse senhor requer espaço e ambiente que propiciem aos jovens amadurecimento. É fundamental que eles sintam e convivam um pouco com a decisão que pretendem firmar.

Muitos pais acreditam que a felicidade e o sucesso dos filhos passam por profissões que lhes garantam boa rentabilidade, um futuro financeiro promissor. Grande equívoco, pois há relatos tristes em que alguns jovens entram em depressão, se desesperam, chegando a passar ao ato – se entregando, desistindo de viver ao se perceberem frequentando cursos de que não estão gostando, tampouco se identificando.

Felicidade é um sentimento subjetivo – diz de nossas entranhas. Não devemos tratar de forma objetiva questões subjetivas. Gente não é objeto, mercadoria, mas uma multidão de desejos, anseios, dúvidas. E, assim sendo, todo cuidado, cautela e paciência é pouco. Ali reside um futuro, uma aposta profissional relevante, um ser que precisa de ajuda num momento tão delicado da vida. O melhor é apoiar e lembrar: pais que gostam dos filhos tudo que desejam é vê-los felizes. Precisa de mais?

Inez Lemos – Psicanalista e consultora em educação

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