Educação sexual é proteção

Existe um arsenal linguístico que toda criança deve aprender o mais breve possível para se defender, para manifestar sua insatisfação, para colocar limites para si mesma e para o outro: “Não quero”. “Não gostei”. “Não!”. Esse pequeno vocabulário é precioso e é um bom ponto de partida para a construção da autoestima. É o primeiro conjunto de palavras para evitar ser vítima do desrespeito e da violência de quem quer que seja.

Sabemos todos de abusos sexuais contra crianças e adolescentes que acontecem diariamente no Brasil. Estão nos jornais ou nas conversas informais. Segundo dados do DATASUS de 2018 (últimos disponíveis), foram 21.172 os nascidos vivos no Brasil de mães entre 10 -14 anos. Os horrores que são corriqueiros em nossa sociedade, além de nos chocarem, entristecerem e nos enojarem, exigem de nós reflexão e ação. Como proteger nossas crianças e adolescentes, especialmente as meninas, que são as maiores vítimas do assédio e do abuso? Um caminho é a educação sexual, que não significa ensinar ou incentivar a fazer sexo, tampouco erotização precoce. Significa proteção e defesa da vida.

Educação sexual é diálogo dos adultos com as crianças e os adolescentes. É diálogo sobre o cuidado e o funcionamento do corpo, sobre respeito consigo mesmo e com o outro, sobre a diferença entre carinho e abuso, entre brincadeira e assédio. É também conversa sobre higiene, doenças, método anticonceptivo, namoro, pornografia, preconceito, consentimento, privacidade, precocidade, pedofilia. O conhecimento é a melhor forma de se defender.

É preciso ver com muita naturalidade e alegria as descobertas que as crianças vão fazendo do próprio corpo, as diferenças que percebem entre o seu corpo e o do outro. À medida que começam suas descobertas sobre sexualidade, as crianças querem saber mais e falar sobre esse assunto, querem e precisam ter suas curiosidades respondidas. Mesmo quando demonstram incômodos – “Eca, beijo na boca!” – elas revelam necessidades de esclarecimento e precisam ser acolhidas.

Na puberdade, o desejo é imperativo e exige mais esclarecimentos. Percebendo que há algo de proibido e misterioso, crianças e adolescentes sussurram com os amigos, provocam os adultos com piadinhas e músicas, fazem perguntas que, para alguns, é motivo de riso, para outros, de constrangimento. Como abordar a sexualidade nem sempre é simples, os adultos podem e devem trocar opiniões. Se a temática não for tabu, maior a chance de os filhos terem experiências que os marquem positivamente.  

Muitas crianças e adolescentes não comentam as situações constrangedoras que vivenciam, nem as ameaças sofridas. Mas os adultos que são próximos dos filhos têm maior probabilidade de perceber que há algo estranho no comportamento deles. Se o diálogo é um valor e alicerça as boas relações na família e na escola, se ele está presente nas mais diversas situações, também será um recurso preventivo ou curativo nas situações mais delicadas.  É com diálogo que se fortalece uma relação de confiança, e é esta que vence a vergonha e impulsiona um pedido de ajuda.  Se um pedido for escutado e atendido a tempo, pode ser evitada uma violência, um abuso, porque, muitas vezes, a aproximação do perverso acontece progressivamente. Portanto, o cultivo de relações afetivas é uma ação protetiva.  E vale a criatividade para ensinar crianças e adolescentes a se defenderem, protegerem irmãos e colegas.

Em tempos de hiper-sexualização e de “adultificação” fomentadas pelo mercado e pelas mídias, que fragilizam o equilíbrio psíquico, o cuidar das crianças e dos adolescentes exige uma rede de proteção. Para evitar violência e traumas, pais e educadores devem estar sempre atentos para perceber onde há malícia e não carinho, assédio e não afeto, precocidade e imaturidade que precisa de intervenção. Eduquemos meninas e meninos para construírem relações afetivas e respeitosas, e não agressivas, opressoras ou submissas. Nossas crianças e jovens merecem que sua vida seja tecida com muitas delicadezas, livre de violência, sofrimento e dor.

Cacá Ribeiro – Psicóloga

Eliane Dantas – Assessora de Comunicação

2 comentários em “Educação sexual é proteção”

  1. Acho extremamente necessária a educação sexual nas escolas, principalmente para as crianças/adolescentes que não se sentem à vontade para discutir esse assunto com a família. A escola está fazendo seu papel auxiliando na formação de seres humanos melhores.

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