Criança precisa brigar

Outro dia, em uma das inúmeras conversas com alunos pelo Zoom sobre pandemia, coronavírus, isolamento e saudade, um querido aluno, desses cuja sociabilidade presencial sempre se deu em meio a muitos pequenos conflitos diários, me solta: “estou com muita saudade dos meus amigos e dos meus inimigos também”. Imediatamente me lembrei de uma série de vídeos produzidos pela brilhante pesquisadora e professora da Unicamp, Telma Vinha, sobre o caráter construtivo dos conflitos. Como iremos ensinar os sujeitos a se responsabilizarem pelos seus atos, se não existirem atos?

É claro que no mundo virtual há muitas formas de transgredir, de ser “mal-educado”, de desrespeitar o outro e as regras (e sabemos muito bem disso por nossa própria experiência em reuniões), mas como faremos para garantir espaço para o embate corporal, para o choro desvairado, para um olho roxo, uma canelada de propósito no jogo, aquela apelada nervosa, o sumiço de um material, a provocação insistente, o tapa no boné, a exclusão de um do grupinho? Pera aí, mas então não estaríamos vivendo o melhor dos mundos? Um mundo escolar livre de conflitos e todo disponível para o investimento no conhecimento? Não. Criança precisa é brigar.

Já entendemos como construir conhecimento à distância, criar interação em grupo com aulas síncronas, ensinar a fazer e a administrar um e-mail próprio aos dez anos, as crianças já têm autonomia para escanear, anexar e enviar tarefas. Já pensamos em fazer a hora do recreio virtualmente e garantimos a frequência das reuniões de pais, de área, de ciclo e com o grupo da psicologia. Já sabemos bem como ocupar nossas tardes que antes eram cheias de suor, gritos e desequilíbrios.

Por aqui, o silêncio pode se dar em um clique, a ordem de quem vai falar primeiro é definida automaticamente, e os prazos, entregas e recebimentos de tarefas são controlados por um planner digital. Nunca tivemos nossas planilhas tão organizadas e um controle absoluto da quantidade de tarefas realizadas por cada um, bem como da conversão em horas EAD. Nunca fomos tão bons em manter a ordem. Por aqui, ainda tivemos que nos virar fazendo pescaria, derruba-lata e quadrilha solo no mês de julho. Viramos criadores de vídeos, aprendemos múltiplos recursos educativos de entretenimento, descobrimos os melhores canais para as crianças, contamos histórias para telas e conhecemos parte das casas de cada um. Mas definitivamente ainda não aprendemos a criar espaços para a briga.

Outro dia, fiquei sabendo que uma menina deixou de ser amiga de outra, porque ela não gostava da bandinha da moda. E isso foi na quarentena. E a briga foi à distância. E o choro solitário, ninguém ouviu. Sabendo do fato, talvez eu devesse ser a responsável por mediar aquele problema, mas, enquanto ouvia uma e outra versão da história, fui imediatamente sendo acalentada pela esperança de que ainda havia algum espaço para o conflito. E, junto, uma preocupação: enquanto não voltarmos para a escola, ou criamos espaços viáveis em que a briga seja possível ou corremos o sério risco de transformar todo esse abafamento nessa nova e estranha forma de agressão virtual. E tirar conhecimento e aprendizagem daí vai ser bem mais doloroso e custoso.

Por Sara Villas

6 comentários em “Criança precisa brigar”

  1. Róridan (pai da Bella)

    É isso aí, Sara! Texto que chama à reflexão, cutuca nossas zonas de conforto.
    É no terreno do conflito que se estabelecem as mediações necessárias à evolução, que se permite aperfeiçoar o ser humano para, sabendo tratá-lo, não deixar que se transforme em brigas/agressões/guerras… E para isso Escola, família e instituições são fundamentais para uma sociedade que aspira (!) se tornar civilização.
    Ajuda a lembrar nossa tarefa, enquanto pais e educadores, de ensinar aos nossos pequenos que cancelamentos e lacrações virtuais não podem e não devem ser ideais de vida em comunidade…

  2. LEONIDAS FRANCA JUNIOR

    O Filme Divertidamente” de alguma forma passa que nem tudo e alegria, há que ter raiva, tristeza e passar por frustrações para aprender como lidar com a vida prática. Não temos que poupar nossos filhos, temos que acompanhar, está ao lado e deixar que cometa seus próprios erros, só dessa forma estarão preparados para o mundo VUCA,

  3. Maravilhosa reflexão! E mais uma vez o olhar sobre a importância da instituição “escola”. Não é simplesmente um espaço de aprendizagem acadêmica.É o espaço das relações pessoais, de aprender a colocar limite, de aprender a conquistar seu espaço, de se afirmar como sujeito. Por isso sentimos tanta saudade… saudade das pessoas, dos cheiros, dos sorrisos, dos choramingos, das gargalhadas, das travessuras…

  4. Achei certo que as crianças tem que brigar pois sem as brigas não há negociações e isso nos ajudam a nos capacitar para uma vida melhor ..(comentários da Beatriz do 1 ciclo transcrito pelo o seu pai )

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *