Coesão e coerência para lutar com palavras

Ao ler um texto seu, do seu filho, ou do seu aluno, sob qual parâmetro você o avalia? Limita-se a observar a gramática, questões pontuais como ortografia, concordância, pontuação, uso inadequado de um pronome ou de uma crase? Ou analisa o texto de forma mais abrangente observando se o desenvolvimento das ideias tem coesão e coerência? Se tiver dúvidas sobre estes dois conceitos, é sobre eles que vamos conversar.

É importante lembrar que todo texto traz a intenção da interação, da troca de ideias com alguém. Quem escreve deve ter clareza do que dizer, para quem dizer, para que e como dizer. Clareza, nesse caso, significa identificar desenvolver o tema central para cumprir determinado objetivo, e não necessariamente estar com toda a argumentação pré-definida. Já a forma de desenvolver o tema vai sendo descoberta nas persistentes idas e vindas da escrita, na busca pela palavra adequada, na avaliação das opções de cortar, deslocar, substituir…

Para enlaçar e dar unidade às informações de um texto, deve-se buscar estratégias de coesão, “essa propriedade pela qual se cria e sinaliza-se toda espécie de ligação, de laço, que dá ao texto unidade de sentido ou unidade temática”, nas palavras da linguista Irandé Antunes¹. Falta de coesão é aquela sensação que a gente tem quando lê um texto e tudo parece solto, quando palavras, frases e parágrafos estão desarticulados, sem continuidade entre eles. Para encadear um conjunto de ideias, utilizam-se alguns procedimentos linguísticos. Esse assunto é vasto, mas uma degustação pode abrir o apetite.

O primeiro recurso para alcançar coesão é a repetição. Ou seja, para juntar cada parte repete-se o já dito, mas de outro jeito, com palavras diferentes para melhor expor uma ideia. É o que foi feito no parágrafo anterior para explicar o que é coesão.  Ou simplesmente repete-se a palavra para reaparecer o tema principal. Neste parágrafo, a palavra “coesão” é repetida, para marcar a continuidade de um tema que está em foco.

O segundo procedimento é a substituição. Notaram que a palavra “procedimento” substituiu a palavra “recurso”? Um sinônimo para enriquecer o texto e mantê-lo coeso. O pronome “lo” é outro exemplo de substituição que ajuda a tornar o texto coeso. Aliás, o uso de pronomes cumpre a função de retomar referências feitas ou antecipar as seguintes. Enfim, no ato da escrita deve-se fazer a escolha mais adequada para retomar o tema central: a repetição de uma palavra, um pronome, um sinônimo, uma expressão equivalente. 

O terceiro recurso é a conexão, que se faz com preposições, conjunções, advérbios… Os conectores são colocados entre orações para mostrar relações, tais como finalidade, adição, temporalidade, conclusão, oposição, explicação. Conectores também são utilizados para sequenciar parágrafos ou blocos maiores do texto.

Vamos então analisar se este texto tem coerência: você percebeu a progressão do tema? Ficou clara a intenção da autora de mostrar que corrigir um texto é ir além da revisão gramatical? Você compreendeu que escrever com coesão envolve estratégias? A conexão entre os parágrafos propiciou uma unidade temática, a defesa de um ponto de vista? Ou há divagações não pertinentes para a temática? As argumentações periféricas estão ligadas ao tema central? Se as respostas são afirmativas, então podemos dizer que este texto tem coerência, fez sentido para você.

Escrever exige tomar muitas decisões para estabelecer o diálogo entre o autor e o leitor. Espero que esta conversa tenha trazido esclarecimentos e possa ajudar você, seu filho, seu aluno a gostar do bom combate com as palavras.  E sempre vale lembrar que a fonte da boa escrita é a leitura.


[1]¹ANTUNES, Irandé. Lutar com palavras – Coesão e coerência. São Paulo: Parábola Editorial, 2005.


Por: Eliane Dantas

3 comentários em “Coesão e coerência para lutar com palavras”

  1. A leitura nos coloca em contato com estilos, ritmos cadências. Ao meu ver, o escritor se apropria de recursos linguísticos e produz sua obra, assim como se fosse uma composição musical.

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