A leitura do mundo

 José Manuel tinha sido capitão na guerra espanhola 
lutando ao lado de Franco, tinha perdido a mão e ganho
algumas medalhas. Certa noite, pouco depois da guerra, o
capitão descobriu por acaso um livro proibido. Chegou
perto, leu um verso, dois versos, e não pôde mais se
soltar. O capitão Cantanón, herói do exército vencedor,
passou a noite toda em claro, grudado no livro, lendo e
relendo César Villarejo, poeta dos vencidos. E ao
amanhecer daquela noite, renunciou ao exército e se
negou a receber qualquer peseta do governo de Franco.
Depois, foi preso; e partiu para o exílio.

Esta pequena história é contada por Eduardo Galeano em “O livro dos abraços”. Poderíamos refletir sobre ela por diferentes ângulos, tais como ética ou dominação. O autor chama atenção para a função do leitor, sobre o que também escolhemos conversar.

Se perguntarmos aos estudantes do 2 º Ciclo ao Ensino Médio se eles sabem ler, com certeza a resposta será ‘sim’. E se perguntarmos para as ​crianças do 1º Ciclo e do Infantil, muitas vão dizer: estou aprendendo. Todo ser começa por ler seu mundo imediato: sua casa, a casa dos avós. Vai compreendendo o que o rodeia. Aos poucos, sua realidade se alarga para sua escola, sua rua, sua cidade… e ele vai, assim, desvelando o universo da palavra escrita.

A leitura da palavra acontece com apoio do adulto, principalmente de um educador. Tal leitura pode ser mecânica, ou seja, pode ser um mero processo de repetição, de decifração, de reconhecer grafemas e fonemas. Daí advém a crítica à memorização de cartilhas. Mas a leitura que nos interessa, pela qual lutamos, é a leitura crítica, tão defendida por Paulo Freire. A leitura que faz a relação entre o texto e o contexto, que procura esclarecimentos profundos. Para alcançá-la, é importante que o indivíduo tenha sua curiosidade valorizada e estimulada desde a infância.

As crianças naturalmente são curiosas. Afinal, os porquês’ são pedidos de compreensão para suas vivências e observações. Então, cabe ao adulto impulsionar essa inquietação indagadora para que ela se torne crítica. Vale aproveitar cada ‘porquê’, responder com o máximo de profundidade que a idade consiga alcançar e convenha escutar. O adulto pode problematizar as conversas, ajudar a criança e o jovem a refletirem sobre o significado das palavras, da frase, do contexto. Pode potencializar a compreensão. Cada mergulho numa história inserida num livro, numa letra de música, numa legenda de filme pode aprofundar conhecimentos, aguçar a crítica e levar a processos de crescimento internos e a ações que desencadeiem transformações.

O capitão da história narrada por Galeano foi arrebatado pelos versos de um vencido, que lhe trouxeram o avesso de uma história oficial. Bons leitores se fazem em processos contínuos e se consolidam em qualquer idade.

Na conversa com o leitor, sabemos que a faixa etária deve ser considerada. Mas se existe algo que é fundamental para formar um leitor crítico é ele compreender que pode e deve questionar o que lê. Duvidar é um princípio da boa leitura, a palavra do outro, seja ele quem for, pode ser questionada. Será que esta autora que lhes escreve tem razão em tudo? Vamos, então, a dicas concretas para a formação de um bom leitor.

Vamos, então, as dicas concretas:

1. Deixe a criança e o jovem ter participação na escolha do texto. Claro que você pode sugerir, mas dialogue, não imponha. Sua capacidade de convencimento também pode fazer o leitor aceitar sua sugestão.

2. Vá entremeando a leitura com conversas/perguntas:

 O que é retratado no texto?

 Quais os personagens e como eles participam da história?

 Todos os fatos lhe pareceram verossímeis?

 Com quais personagens você se identificou ou não se identificou? Por quê?

 Você concordou com o autor em tudo? Onde houve discordância?

 Quais palavras novas você descobriu?

 O que você aprendeu com o livro?

 Quais sentimentos o livro despertou em você?

E não se esqueçam de valorizar os porquês!

Eliane Dantas (Assessora de Comunicação)

1 comentário em “A leitura do mundo”

  1. WAGNER DE AGUIAR DUARTE

    Excelente texto. Contar com Eduardo Galeano para ilustrar uma tese já a coloca num patamar mais alto. Viva a leitura, e viva o pensamento crítico, em qualquer idade.

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