ACAMPAR PRA QUÊ?

Por Sérgio Godinho

Crescer é, aos poucos, aprender a reconhecer suas possibilidades e limites, situar-se socialmente, libertar-se da tutela do outro e construir a própria trajetória de vida, através do exercício da autonomia. Educar é, portanto, propiciar oportunidades para esse crescimento abrindo espaços para que as crianças e jovens possam se experimentar em situações diversas.

Nesse sentido, a criança e o jovem necessitam de oportunidades de convivência com o outro que extrapolem as situações cristalizadas do dia-a-dia e lhes proporcionem a chance de desempenhar diferentes papéis no grupo e conhecer melhor a si mesmos na relação com o outro. É importante que aprendam a cooperar e a se sentirem responsáveis por si e pelo próximo, que aprendam a falar e a escutar, a se impor e a ceder, a liderar e a seguir. Que percebam o valor da simplicidade, da humildade e do despojamento, aprendendo a distinguir o essencial do supérfluo.

É, também, parte essencial do processo educativo a busca por desenvolver nas crianças e jovens a capacidade de encantar-se com a natureza e a responsabilidade de preservar o meio-ambiente. E é bom que tomem gosto pela aventura, que desenvolvam a ousadia e valorizem o novo, desde que, paralelamente, aprendam a respeitar o poder avassalador das forças da natureza e a valorizar medidas de segurança, evitando riscos desnecessários.

Tudo isso é proporcionado por uma experiência que promovemos anualmente na Escola da Serra, uma escola particular em Belo Horizonte. Durante 5 dias, cerca de 70 alunos do terceiro ciclo (12 a 14 anos), acompanhados de um grupo de educadores, acampam numa região remota da Serra do Cipó, em Minas Gerais. No meio do mato, à margem de um ribeirão, mais de duas dezenas de barracas pontilham de cores uma mata de aroeiras. A região, lindíssima, emoldurada pela serra que muda de cores com o por do sol, oferece variadas oportunidades de atividades e de convivência. Muitos dos jovens têm, pela primeira vez, a oportunidade de estar longe da família, em um ambiente não-estruturado, onde não há sinal de celular, onde ele terá de se responsabilizar por si e pelos outros.
Enfrentando situações distintas daquelas que fazem parte de sua rotina, os papéis dos membros do grupo serão necessariamente revistos, e cada um poderá conhecer características do colega que, no dia-a-dia da sala de aula, ficavam veladas. Uma oportunidade de reconhecer o outro, revisar as relações, repensar a si mesmo e reconstruir papéis.

Uma situação de acampamento oferece muito mais espaço para a cooperação do que para a competição. Para o sucesso da empreitada, todos têm que ser solidários, dividir espaço, tarefas e alimentos, compartilhar alegrias, descobertas, histórias... muitas vezes, a própria história. Nessa situação de grupo tão intensa, ele perceberá que depende do outro, mas que o outro também depende dele. Terá que negociar permanentemente, já que, pela ausência da rotina, decisões são necessárias a cada passo. E, para cada decisão, um terá que escutar o outro e terá, também, a oportunidade de contribuir com sua opinião.

E todos aprenderão, ainda, como é possível viver com pouco, sem luxo, sem ostentação, sem a parafernália eletrônica que entulha nossas casas e nossas vidas e que, muitas vezes, nos escraviza em vez de nos libertar. O contato íntimo com a natureza será uma oportunidade para que os jovens aprendam a usufruir de tudo que ela oferece com sensibilidade e consciência preservacionista. Sua sensibilidade será aguçada ao apreciar a beleza da paisagem, das flores, das estrelas. Aprenderão que a beleza da natureza pode esconder perigos, mas que nem por isso devemos temê-la, mas sim aprender a respeitá-la – e essa é a mais eficaz regra de segurança.
Sair da rotina, aventurar-se por espaços desconhecidos e experimentar diferentes emoções contribuirá para ampliar a visão de mundo e o conhecimento de si mesmos, estimulará a ousadia, fortalecerá a autoconfiança e fará com que descubram o gosto do novo... características essas das pessoas que, desde sempre, empreendem a transformação do mundo.